A Copa do Mundo de 2026 impulsionou a visibilidade das plataformas de apostas esportivas, as bets, e intensificou o debate sobre seus impactos sociais e financeiros no Brasil. Especialistas alertam que grandes eventos esportivos podem agravar comportamentos compulsivos e afetar principalmente grupos mais vulneráveis, criando condições tanto para o surgimento de novos casos de dependência quanto para o aprofundamento dos já existentes.
Em meio ao Mundial, o Ministério da Justiça abriu investigação por indício de propaganda abusiva, com foco inicial na CazéTV, plataforma investigada por divulgar promoções de bets durante transmissões de jogos. Colunistas do Estadão, porém, ressaltam que a prática não é exclusividade do canal: Globo, SBT e N Sports, todas com direitos de transmissão da Copa, também exibem publicidade do setor. Paralelamente, a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), ligada ao Ministério da Fazenda, anunciou que vai endurecer as regras do mercado, com novos instrumentos de punição e restrições aos jogos de azar.
Os números revelam a dimensão do problema. O brasileiro já gasta R$ 30 bilhões por ano com apostas, valor que supera categorias como livros, cinema, música e até alimentos básicos como arroz, feijão, legumes e frutas. Nas classes D e E, as bets representam 1,38% do orçamento familiar e chegaram a consumir 5,5% do que essas famílias destinam à alimentação em 2024. O Brasil é hoje o quinto maior mercado de apostas do mundo.
O futebol está no centro dessa equação. Em 2023, 39 dos 40 clubes das séries A e B do Campeonato Brasileiro tinham patrocínios de casas de apostas, com contratos que facilmente superam dezenas de milhões de reais anuais. Para além do aspecto financeiro, colunistas alertam para o risco à integridade esportiva: com volume astronômico de dinheiro em jogo, cresce a preocupação com a manipulação de resultados a partir de ações simples, como forçar cartões amarelos ou ceder escanteios.
No campo tributário, a legislação brasileira trata as bets de forma mais branda do que as loterias tradicionais. Enquanto prêmios da Mega-Sena e de outras loterias estão sujeitos a regras mais rígidas de Imposto de Renda, os ganhos nas plataformas de apostas recebem tratamento fiscal mais favorável, o que reforça a assimetria regulatória do setor.