Uma nova febre de emagrecimento tomou conta das redes sociais e dos consultórios médicos, impulsionada por medicamentos injetáveis como Ozempic (semaglutida) e Mounjaro (tirzepatida). Embora aprovados para o tratamento de diabetes tipo 2, eles passaram a ser utilizados como atalhos para uma perda de peso rápida e estética. O alerta dos especialistas é claro: o uso sem prescrição e sem acompanhamento médico adequado representa um risco grave à saúde.
A narrativa online é sedutora: uma injeção semanal que reduz drasticamente o apetite e “derrete” quilos em semanas. Influenciadores exibem transformações e criam a sensação de facilidade mascarando que se trata de medicamentos de alto poder farmacológico e uso controlado.
Os médicos alerta que interferir sem orientação nesses hormônios que regulam apetite, glicemia e funções pancreáticas e gastrointestinais é “como mexer cegamente na orquestra do organismo”.
Os riscos reais à saúde
Além de efeitos colaterais imediatos como náuseas, vômitos e diarreia, há riscos muito maiores:
Pancreatite e problemas na vesícula
Hipoglicemia grave, com risco de desmaios e coma
Risco aumentado de câncer de tireoide em indivíduos predispostos
Atrofia muscular e desnutrição, pela perda acelerada de massa magra
Efeito sanfona intensificado, caso o uso seja interrompido sem supervisão
Interações com outros medicamentos, podendo provocar complicações
Desabastecimento e impacto social
O uso indiscriminado criou um cenário global de desabastecimento, prejudicando pacientes com diabetes tipo 2 que dependem desses medicamentos para controle da doença. Para especialistas e associações de saúde, trata-se de uma injustiça sanitária motivada por uma “moda estética”.
O único caminho seguro
Versões específicas, como o Wegovy, já são autorizadas para obesidade, mas o consenso médico é unânime: esses medicamentos só devem fazer parte de um tratamento multidisciplinar, que inclui endocrinologista, nutricionista e acompanhamento psicológico.
O caso Giovanna Chaves: quando o risco vira tendência
A influenciadora e atriz Giovanna Chaves tornou-se um símbolo preocupante da banalização desse tipo de medicamento. Ao afirmar que usou Mounjaro para reduzir seu manequim de 53 para 48 — mesmo já sendo considerada magra , acendeu um alerta sobre o uso estético e não médico do fármaco.
O problema: normalização do uso estético
Uso sem indicação clínica: não havia obesidade, diabetes ou resistência insulínica.
Meta estética baseada em padrões irreais: reduzir manequim para caber em roupas de grife.
Banalização do medicamento: ainda que citasse acompanhamento médico, a mensagem transmitida normaliza o uso para fins puramente estéticos.
A fala de Giovanna deu visibilidade ao problema: a glamourização de um medicamento forte usado como acessório da cultura da magreza.
Reação de especialistas e impacto social
Médicos questionaram a ética de prescrever o remédio para alguém sem necessidade clínica. Especialistas em imagem corporal apontaram para o reforço de padrões irreais de magreza. O público se dividiu entre apoio e críticas severas.
Um retrato da distorção atual
O caso funciona como espelho da pressão estética, mostrando como até pessoas com corpos considerados magros pela sociedade podem ser empurradas a riscos desnecessários. E expõe o poder que influenciadores têm de normalizar práticas perigosas.
A busca pelo “corpo perfeito” não pode custar a saúde. A automedicação com Ozempic, Mounjaro e similares é perigosa, cria problemas de saúde pública e alimenta padrões estéticos distorcidos. Em saúde, atalhos podem custar caro e o preço, em muitos casos, é a própria vida.