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Terça-feira, 21 de Abril de 2026
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Obesidade avança no Brasil e acende alerta para impacto no câncer

Excesso de peso atinge 61% dos adultos nas capitais e está ligado a 13 tipos de tumores

Obesidade avança no Brasil e acende alerta para impacto no câncer
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O Brasil conseguiu reduzir de forma consistente o tabagismo nas últimas décadas com políticas públicas robustas — como restrição à propaganda, aumento de impostos e oferta de tratamento pelo SUS — e colheu resultados expressivos, como a queda no número de fumantes e na mortalidade por câncer de pulmão entre homens.

Agora, especialistas alertam que outro fator de risco cresce de forma silenciosa: o excesso de peso.

Dados recentes do Vigitel indicam que 61,4% da população adulta das capitais brasileiras está acima do peso. Estimativas apontam que, nas próximas duas décadas, quase metade dos adultos pode viver com obesidade. Atualmente, cerca de 26% dos brasileiros — aproximadamente 41 milhões de pessoas — têm obesidade.

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Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), uma parcela relevante dos casos de câncer no país está associada ao sobrepeso e à obesidade. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 13 em cada 100 casos de câncer no Brasil sejam atribuíveis ao excesso de peso corporal.

Quais cânceres estão associados à obesidade?

A Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC), ligada à OMS, reconhece que o excesso de gordura corporal está associado a pelo menos 13 tipos de câncer, entre eles:

Mama (especialmente na pós-menopausa)

Cólon e reto

Endométrio

Ovário

Fígado

Pâncreas

Rim

Esôfago (adenocarcinoma)

Vesícula biliar

Estômago (cárdia)

Tireoide

Mieloma múltiplo

Meningioma

Embora nem todos os casos desses tumores ocorram em pessoas com obesidade, o acúmulo excessivo de gordura corporal eleva o risco populacional.

“O tecido adiposo não é inerte. Ele produz substâncias inflamatórias e altera o equilíbrio hormonal do organismo”, explica o oncologista Mauro Donadio, da Oncoclínicas. “Esse ambiente metabólico favorece a proliferação celular e pode contribuir para o desenvolvimento e a progressão de tumores. Além disso, os resultados dos tratamentos em pessoas com obesidade tendem a ser piores.”

O que acontece no organismo?

A obesidade é definida como doença crônica caracterizada por índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 30 kg/m². No plano biológico, envolve alterações complexas, como:

Aumento de leptina, insulina, triglicérides e fatores de crescimento;

Elevação de citocinas pró-inflamatórias;

Maior atividade da aromatase, com impacto hormonal;

Redução de adiponectina;

Supressão da imunidade antitumoral e das células T;

Estado de inflamação crônica persistente.

“Não se trata apenas de peso na balança, mas de um desarranjo metabólico sistêmico”, afirma Donadio. “A inflamação crônica, associada à disfunção imunológica e às alterações hormonais, cria um terreno biologicamente mais favorável ao câncer.”

Impacto no diagnóstico e no tratamento

A obesidade também interfere no prognóstico. O risco de recidiva após tratamento curativo pode ser maior em pacientes com obesidade.

Além disso, muitos recebem diagnóstico em estágios mais avançados. Entre os fatores associados estão barreiras estruturais — como equipamentos inadequados para exames — e o estigma, que pode dificultar o acesso e a continuidade do cuidado.

O tratamento oncológico tende a ser mais complexo nesse cenário. O excesso de gordura corporal pode estar relacionado a:

Maior toxicidade da quimioterapia;

Resistência à radioterapia;

Complicações cutâneas, pior cicatrização e mais infecções no pós-operatório;

Redução da eficácia da hormonioterapia;

Mais efeitos adversos em imunoterapia.

Outro ponto crítico é a sarcopenia — perda de massa muscular — que pode piorar a resposta ao tratamento e a qualidade de vida. Quando há combinação de obesidade e sarcopenia, o impacto tende a ser ainda mais significativo.

“Precisamos olhar além do IMC e avaliar a composição corporal e funcionalidade. A abordagem deve ser individualizada”, destaca o especialista.

Prevenção e políticas públicas

A epidemia de obesidade está ligada à mudança no padrão alimentar, com maior consumo de produtos ultraprocessados e bebidas açucaradas, em detrimento de alimentos frescos.

Países como México e Chile adotaram medidas como taxação de bebidas açucaradas e rotulagem frontal de advertência. No Brasil, o Guia Alimentar para a População Brasileira e compromissos firmados junto à Organização Pan-Americana da Saúde são considerados avanços, mas especialistas defendem ações mais amplas.

“Se aprendemos com o enfrentamento ao tabagismo, sabemos que políticas públicas consistentes fazem diferença. Tributação de produtos nocivos, regulação da publicidade infantil e promoção de ambientes saudáveis são medidas estruturais”, afirma Donadio.

Obesidade é o “novo tabagismo”?

A comparação tem sido feita por especialistas, mas com ressalvas. Diferentemente do cigarro, cuja relação causal com o câncer é direta e amplamente comprovada, a associação entre obesidade e câncer é multifatorial e mais complexa.

“Não é uma equivalência simples. Mas, do ponto de vista da saúde pública, a obesidade já se consolida como um dos principais fatores modificáveis de risco para câncer”, pondera o oncologista.

Diante do avanço do sobrepeso no país, especialistas defendem que o enfrentamento da obesidade seja tratado como prioridade de saúde pública.

“Controlar o peso não é uma questão estética. É uma estratégia concreta de prevenção oncológica e de melhora de desfechos para quem já enfrenta a doença”, conclui Donadio.

POR REDAÇÃO

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