A campanha Janeiro Roxo chama a atenção para a hanseníase, doença infecciosa crônica que, apesar de ter cura e tratamento gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS), ainda representa um desafio relevante de saúde pública no Brasil. O país ocupa a segunda posição no ranking mundial de novos casos, atrás apenas da Índia, e concentra mais de 90% das notificações registradas nas Américas.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que, em 2024, o Brasil notificou 22.129 novos casos da doença, uma redução de 2,8% em relação ao ano anterior. Ainda assim, especialistas alertam que o diagnóstico tardio e o estigma social seguem como os principais obstáculos para o controle da hanseníase.
Causada pela bactéria Mycobacterium leprae, a doença afeta principalmente a pele e os nervos periféricos, podendo comprometer a sensibilidade ao toque, à dor e à temperatura. Entre os sinais mais comuns estão manchas claras, avermelhadas ou acastanhadas na pele, geralmente sem coceira ou dor, além de dormência, formigamento e fraqueza muscular.
Segundo a professora de Dermatologia da Afya Goiânia, Bruna Cunha, a informação é essencial para quebrar o preconceito histórico associado à hanseníase. “A doença tem cura e o tratamento é eficaz, mas o diagnóstico tardio ainda leva a sequelas que poderiam ser evitadas”, afirma. De acordo com a especialista, o tratamento é feito com uma combinação de antibióticos por um período de seis a 12 meses, dependendo da forma clínica.
A transmissão ocorre principalmente por contato próximo e prolongado com pessoas que ainda não iniciaram o tratamento, por meio das vias respiratórias. Após o início da medicação, o risco de contágio diminui de forma rápida e significativa. “Assim que o paciente começa o tratamento, ele deixa de transmitir a doença, o que ajuda a reduzir o medo e o preconceito”, destaca a médica.
Outro ponto de atenção é o elevado número de diagnósticos tardios. Em 2024, mais de 10% dos novos casos no Brasil já apresentavam grau 2 de incapacidade, indicador que envolve deformidades visíveis, como lesões, retrações, amputações e comprometimento neurológico grave. Esse percentual é quase o dobro da média global.
Para o infectologista Américo Calzavara Neto, da Afya São João del-Rei, fatores sociais como pobreza, moradia precária, aglomeração domiciliar e dificuldade de acesso aos serviços de saúde contribuem para a persistência da doença no país. “O longo período de incubação, que pode variar de dois a sete anos, faz com que muitos casos reflitam transmissões antigas, especialmente em famílias com diagnóstico tardio”, explica.
Especialistas reforçam que qualquer mancha na pele associada à alteração de sensibilidade deve ser avaliada por um profissional de saúde. O diagnóstico é clínico, baseado no exame dermatoneurológico, podendo ser complementado por testes de sensibilidade, baciloscopia e, em alguns casos, biópsia.
A campanha Janeiro Roxo também destaca a importância da avaliação de contatos próximos, como familiares, e da vacinação BCG, que ajuda a reduzir o risco de formas mais graves da doença.
“O estigma e a desinformação ainda afastam muitas pessoas do diagnóstico e do tratamento. Educação em saúde, acesso ao cuidado e informação qualificada são fundamentais para interromper a transmissão e evitar sequelas”, concluem os especialistas.